Ludwig van
Beethoven, embora inserido musicalmente pela história no período clássico, é
apontado por muitos como o primeiro compositor romântico, sobretudo, a partir
do momento em que apresenta a sua 3ª Sinfonia – Eroica.
O classicismo
surge na música europeia em meados do século XVIII, absorvendo, por isso, uma
série de ideais iluministas, que proclamavam a vontade e o direito público ao
conhecimento. Sendo a lógica um dos seus alicerces, o Iluminismo tornou os
homens mais iguais, conferindo-lhes o ímpeto de pensar, de questionar uma certa
ordem instituída de que o poder cultural e intelectual seria um dote exclusivo
dos membros de classes sociais mais altas.
Era, ainda assim,
uma Europa temente a Deus – já não tanto à Igreja –, e o conhecimento, a própria
filosofia, continuavam a incidir na sua busca.
A música do
período clássico, que terá certamente em Wolfgang Amadeus Mozart o seu expoente
máximo, terá surgido como uma voz divina, como algo angelical que parecia ter a
capacidade de harmonizar os homens no seu interior. Ainda hoje, a alma parece
ficar lavada ao ouvir uma sinfonia de Mozart ou Haydn, por exemplo.
Já o romantismo,
que toma conta das lides musicais cerca de um século mais tarde, parece virar
um pouco as costas a Deus, centrando as atenções no homem enquanto indivíduo,
com os seus amores e frustrações, e na sua relação com a natureza e o mundo. A
música deste período é, por isso mesmo, mais voluptuosa, apaixonada,
conturbada, por vezes. A perfeição divina dá lugar à perfeita imperfeição humana!
Beethoven, que foi
aprendendo com anjos clássicos, que traziam mensagens divinas através da sua
música, é muitas vezes conotado com um espírito demasiado perturbado para compreender
tal divindade. Mas na verdade, Beethoven tinha sentidos capazes de enxergar bem
mais além de onde os anjos vinham. Demasiado visionário para ser um homem
comum, por demais desgraçado para ser extraordinário; ainda assim, foi-o. E,
como tal, sofreu da solidão e da incompreensão de que os génios costumam
padecer.
E foi Beethoven,
quem conferiu verdadeiramente ao homem o direito de usar a linguagem divina.
Fê-lo no quarto andamento da sua 9ª Sinfonia, ao introduzir pela primeira vez
um côro numa obra sinfónica, entoando aquele que ficou conhecido como o Hino da
Alegria, que é ainda hoje um símbolo de igualdade e de conciliação. Conseguiria
um homem vulgar, ou até mesmo um anjo, promover tal união entre os homens,
mostrando-lhes ainda que toda essa beleza pode brotar do seu interior, quanto
mais não seja, através do canto?
Beethoven
conseguiu-o. O génio verdadeiramente divino aprisionado no seu corpo já
desgastado estava pronto para sair. E saiu!
Grose Fugue é uma
obra que não poderia ser composta por um simples homem – surdo, como se não
bastasse –, tal como à época, não foi compreendida pela maioria.
Esta peça poderia
ser encarada como o resumo da obra e da vida do compositor, mas mais do que
isso, como um resumo da história da humanidade, que, no ocidente, se cingia
ainda muito ao texto sagrado. Grose Fugue tem o desespero humano, a ira do
antigo testamento, a redenção do novo, e mais desespero!
Beethoven não
trouxe com a sua música a mensagem de Deus. Deu-a simplesmente. Certamente,
porque acreditava nos homens. O compositor carrancudo foi capaz de encontrar o
verdadeiro milagre dentro de si, e, com a sua música, mostrou aos demais que
também o podem fazer; que a arte é sentimento e que o sentimento é vida. Talvez
um dia, os homens se conciliem consigo e voltem a ser irmãos.
Absolutamente incrível!
ResponderEliminar