segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Anti-heróis




Ainda bem que existe ficção. Louvados os livros e as séries e os filmes, por celebrarem os heróis, sejam eles super-dotados ou não! 
No mundo a que chamamos real, os heróis são tantos, que se banalizam; herói é apenas uma forma desenvergonhada de dizer mártir, geralmente anónimo.
Na ficção, o herói prevalece. Mesmo quando cai por terra, transforma-se em lenda e continua a ser fonte inspiradora.
Na não ficção, os heróis vivem o tempo suficiente para se esquecerem, eles próprios, do seu heroísmo. Quem quer salvar o mundo, ou pelo menos mudá-lo, passa mal. Porque, do lado de cá, são os vilões que comandam; são estes quem anula qualquer tentativa - por mais ténue que seja - de acto heróico. Os vilões não te permitem que sejas herói de ti próprio, nem da tua casa, nem dos teus filhos.
Ainda bem que existe ficção. Assim, pelo menos, os teus filhos poderão ter heróis e sê-los a todos, até tu seres aniquilado pelos vilões e a taxação dos sonhos recaia sobre eles. 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Manual da Cabeça Cansada





Tomo banho desde pequenino. É um hábito que me foi impregnado, e que parece não sair nem com a mais cáustica ensaboadela, nem tampouco com a mais esfoliante esfregadela de toalha!
Sendo a vida composta de rituais, um dos meus, é começar o banho pela cabeça; todas as manhãs começo por molhar o cabelo, passar o champô, e só depois parto para o resto do corpo.
Alguns anos após começar a tomar banho, a miopia e algum tipo de fraqueza do nariz face ao peso dos óculos, trazem a maravilha das lentes de contacto aos meus olhos. Uso-as há mais de dez anos (não o mesmo par), e nunca tinha tinha trocado a lente do olho direito com a lente do olho esquerdo.... Até hoje! Exactamente um dia depois de entrar para a banheira e, ainda com o cabelo seco, verter o champô sobre a esponja de banho!

Juntando a estes dois episódios a quantidade de lapsos e nós cegos que a minha cabeça tem dado sobre si própria, os poucos sobreviventes sóbrios deste pequeno universo em colapso eminente deliberam:

Se algum fenómeno desta natureza, ou semelhante, ocorreu na sua vida de modo intencional e controlado, ainda que com naturalidade, parabéns! Você é um actor e tanto!

Se algum fenómeno desta natureza, ou semelhante, ocorreu na sua vida de um modo inesperado, e você o considera normal, deve estar maluquinho.

Se algum fenómeno desta natureza, ou semelhante, ocorreu na sua vida de um modo inesperado, e você está inquietado, ou até apavorado, parabéns! Você é esperto e prudente, mas precisa de ajuda! Caso não a procure, transitará imediatamente para a categoria a que se refere a alínea anterior.

Se algum fenómeno da natureza concreta da troca das lentes de contacto ocorreu na sua vida, e se o grau de miopia dos dois olhos, e subsequente graduação das lentes, forem diferentes, e você não tiver dado por ela, vá a um oftalmologista! Se deu por ela, ponha as lentes no olho correspondente!

Posto isto, usem mais os óculos, que são mais difíceis de pôr ao contrário

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Hipertanço




Senhor L, que vale o que vale, trabalha no meio de incríveis criaturas marinhas. Com tanto sal na sua vida, ainda há-de ficar hipertenso.
Mas porquanto - apenas "hipertanço" -, do que Senhor L padece é falta de açúcar na vida. Até porque, lá no trabalho, nem a água doce o é!
Senhor L é medicado para se manter dedicado à função. Toma citalopram e, ocasionalmente, victan, e assim, certamente, há-de voltar amanhã...


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Le Chat O

A provar que à noite todos os gatos são pardos, mas que há ainda alguns que são parvos, fica uma criação poética de Monsieur Le Chat.

Quando se tem vida de cão
Dá jeito ter paciência de monge,
Sem hábito algum, senão
O da ciência de se manter longe
Dos marcos do correio.
Pois já, por uma vez, recebi cartas
Que cheiravam a xixi,
E que traziam no meio
Marcas com dégradés em tons caqui!

Infelizmente, Monsieur Le Chat é também o provedor do blogue, por isso, não há nada a fazer.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ludwig, o libertador

Ludwig van Beethoven, embora inserido musicalmente pela história no período clássico, é apontado por muitos como o primeiro compositor romântico, sobretudo, a partir do momento em que apresenta a sua 3ª Sinfonia – Eroica.
O classicismo surge na música europeia em meados do século XVIII, absorvendo, por isso, uma série de ideais iluministas, que proclamavam a vontade e o direito público ao conhecimento. Sendo a lógica um dos seus alicerces, o Iluminismo tornou os homens mais iguais, conferindo-lhes o ímpeto de pensar, de questionar uma certa ordem instituída de que o poder cultural e intelectual seria um dote exclusivo dos membros de classes sociais mais altas.
Era, ainda assim, uma Europa temente a Deus – já não tanto à Igreja –, e o conhecimento, a própria filosofia, continuavam a incidir na sua busca.
A música do período clássico, que terá certamente em Wolfgang Amadeus Mozart o seu expoente máximo, terá surgido como uma voz divina, como algo angelical que parecia ter a capacidade de harmonizar os homens no seu interior. Ainda hoje, a alma parece ficar lavada ao ouvir uma sinfonia de Mozart ou Haydn, por exemplo.
Já o romantismo, que toma conta das lides musicais cerca de um século mais tarde, parece virar um pouco as costas a Deus, centrando as atenções no homem enquanto indivíduo, com os seus amores e frustrações, e na sua relação com a natureza e o mundo. A música deste período é, por isso mesmo, mais voluptuosa, apaixonada, conturbada, por vezes. A perfeição divina dá lugar à perfeita imperfeição humana!
Beethoven, que foi aprendendo com anjos clássicos, que traziam mensagens divinas através da sua música, é muitas vezes conotado com um espírito demasiado perturbado para compreender tal divindade. Mas na verdade, Beethoven tinha sentidos capazes de enxergar bem mais além de onde os anjos vinham. Demasiado visionário para ser um homem comum, por demais desgraçado para ser extraordinário; ainda assim, foi-o. E, como tal, sofreu da solidão e da incompreensão de que os génios costumam padecer.
E foi Beethoven, quem conferiu verdadeiramente ao homem o direito de usar a linguagem divina. Fê-lo no quarto andamento da sua 9ª Sinfonia, ao introduzir pela primeira vez um côro numa obra sinfónica, entoando aquele que ficou conhecido como o Hino da Alegria, que é ainda hoje um símbolo de igualdade e de conciliação. Conseguiria um homem vulgar, ou até mesmo um anjo, promover tal união entre os homens, mostrando-lhes ainda que toda essa beleza pode brotar do seu interior, quanto mais não seja, através do canto?
Beethoven conseguiu-o. O génio verdadeiramente divino aprisionado no seu corpo já desgastado estava pronto para sair. E saiu!
Grose Fugue é uma obra que não poderia ser composta por um simples homem – surdo, como se não bastasse –, tal como à época, não foi compreendida pela maioria.
Esta peça poderia ser encarada como o resumo da obra e da vida do compositor, mas mais do que isso, como um resumo da história da humanidade, que, no ocidente, se cingia ainda muito ao texto sagrado. Grose Fugue tem o desespero humano, a ira do antigo testamento, a redenção do novo, e mais desespero!

Beethoven não trouxe com a sua música a mensagem de Deus. Deu-a simplesmente. Certamente, porque acreditava nos homens. O compositor carrancudo foi capaz de encontrar o verdadeiro milagre dentro de si, e, com a sua música, mostrou aos demais que também o podem fazer; que a arte é sentimento e que o sentimento é vida. Talvez um dia, os homens se conciliem consigo e voltem a ser irmãos. 
















terça-feira, 24 de setembro de 2013





























TP0337 

Viajava de noite.
Pela janela do avião
Apenas via a minha mão
E o papel em que escrevia ao contrário.

A onze quilómetros de altura,
Viajava a meu lado um sujeito moreno;
Era canhoto e escrevia da direita para a esquerda.
Estava de t-shirt;
Bonito, boa pinta... Parecia até apreciar arte.
Só que do lado de lá do vidro
Estariam uns centígrados
Negativos setenta e tais graus.
Fiquei com pele de galinha
Ao ver que a dele não estava. 
E nesse preciso instante eriçou-se para mim!
Comecei a pensar que ele era um dos maus,
E que para mim seria o fim da linha;
Que talvez ele fosse membro da Al-Qaeda.
Voava e escrevia, torto e sem linhas
(não era deus, portanto).

Àquela altura não eram de desconsiderar
Os efeitos adversos de uma queda.

Também poderia ser o Aladino;
Aquelas páginas brancas o tapete,
E as palavras seu destino.
Fiquei bem mais descansado,
Já que sempre simpatizei 
Com personagens de histórias de encantar.
Aladino levava lágrimas nos olhos,
E não creio que fosse da deslocação do ar.
Que destino, que viagens seriam as dele?
Ainda tentei descobrir a razão daquela dor
Lendo as palavras que ele escrevia.
Porém, consegui perceber apenas uma,
Que era "ROMA".
Talvez fosse para lá que ele fosse,
Embora estivesse um pouco fora de rota...
De repente, uma gota caiu no meu caderno.
A escassos mil e poucos metros do chão
Era a minha vida que descia
Para bem mais fundo que o alcatrão da pista.

Aladino chorava debaixo dos meus olhos,
Onde as palavras eram tecidas pela dor
De quem aterrava longe do seu AMOR.





What a big....

Tenho a impressão digitada
No teu rosto,
Que a almofada não apaga;
Nem é suposto.
Uma errática fruição
Do ar que respiras
Dá lugar à problemática aferição
De que as mentiras
Desvanecem com a alvorada.
Tenho a tua mão estampada
No meu rosto.
Sem a comiseração da almofada,
Resta-me aguardar por outro encosto.