quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ludwig, o libertador

Ludwig van Beethoven, embora inserido musicalmente pela história no período clássico, é apontado por muitos como o primeiro compositor romântico, sobretudo, a partir do momento em que apresenta a sua 3ª Sinfonia – Eroica.
O classicismo surge na música europeia em meados do século XVIII, absorvendo, por isso, uma série de ideais iluministas, que proclamavam a vontade e o direito público ao conhecimento. Sendo a lógica um dos seus alicerces, o Iluminismo tornou os homens mais iguais, conferindo-lhes o ímpeto de pensar, de questionar uma certa ordem instituída de que o poder cultural e intelectual seria um dote exclusivo dos membros de classes sociais mais altas.
Era, ainda assim, uma Europa temente a Deus – já não tanto à Igreja –, e o conhecimento, a própria filosofia, continuavam a incidir na sua busca.
A música do período clássico, que terá certamente em Wolfgang Amadeus Mozart o seu expoente máximo, terá surgido como uma voz divina, como algo angelical que parecia ter a capacidade de harmonizar os homens no seu interior. Ainda hoje, a alma parece ficar lavada ao ouvir uma sinfonia de Mozart ou Haydn, por exemplo.
Já o romantismo, que toma conta das lides musicais cerca de um século mais tarde, parece virar um pouco as costas a Deus, centrando as atenções no homem enquanto indivíduo, com os seus amores e frustrações, e na sua relação com a natureza e o mundo. A música deste período é, por isso mesmo, mais voluptuosa, apaixonada, conturbada, por vezes. A perfeição divina dá lugar à perfeita imperfeição humana!
Beethoven, que foi aprendendo com anjos clássicos, que traziam mensagens divinas através da sua música, é muitas vezes conotado com um espírito demasiado perturbado para compreender tal divindade. Mas na verdade, Beethoven tinha sentidos capazes de enxergar bem mais além de onde os anjos vinham. Demasiado visionário para ser um homem comum, por demais desgraçado para ser extraordinário; ainda assim, foi-o. E, como tal, sofreu da solidão e da incompreensão de que os génios costumam padecer.
E foi Beethoven, quem conferiu verdadeiramente ao homem o direito de usar a linguagem divina. Fê-lo no quarto andamento da sua 9ª Sinfonia, ao introduzir pela primeira vez um côro numa obra sinfónica, entoando aquele que ficou conhecido como o Hino da Alegria, que é ainda hoje um símbolo de igualdade e de conciliação. Conseguiria um homem vulgar, ou até mesmo um anjo, promover tal união entre os homens, mostrando-lhes ainda que toda essa beleza pode brotar do seu interior, quanto mais não seja, através do canto?
Beethoven conseguiu-o. O génio verdadeiramente divino aprisionado no seu corpo já desgastado estava pronto para sair. E saiu!
Grose Fugue é uma obra que não poderia ser composta por um simples homem – surdo, como se não bastasse –, tal como à época, não foi compreendida pela maioria.
Esta peça poderia ser encarada como o resumo da obra e da vida do compositor, mas mais do que isso, como um resumo da história da humanidade, que, no ocidente, se cingia ainda muito ao texto sagrado. Grose Fugue tem o desespero humano, a ira do antigo testamento, a redenção do novo, e mais desespero!

Beethoven não trouxe com a sua música a mensagem de Deus. Deu-a simplesmente. Certamente, porque acreditava nos homens. O compositor carrancudo foi capaz de encontrar o verdadeiro milagre dentro de si, e, com a sua música, mostrou aos demais que também o podem fazer; que a arte é sentimento e que o sentimento é vida. Talvez um dia, os homens se conciliem consigo e voltem a ser irmãos. 
















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